À primeira vista, parecem personagens de histórias muito diferentes. A Pesadeira é uma figura do folclore das aldeias portuguesas; o íncubo e o súcubo são demónios da teologia medieval, discutidos por inquisidores e teólogos. E, no entanto, quem compara os relatos encontra semelhanças difíceis de ignorar.
Em todos eles, a cena passa-se à noite, na cama. A pessoa acorda ou julga acordar, sente um peso sobre o corpo, não se consegue mexer e percebe uma presença junto de si. A diferença principal está no carácter do encontro: a Pesadeira limita-se a esmagar e a sufocar, enquanto o íncubo e o súcubo acrescentam uma dimensão sexual.
Os investigadores que estudam a paralisia do sono reconhecem estes três elementos nos episódios de hoje. A sensação de presença intrusa, a pressão no peito e, em alguns casos, sensações de toque e de conteúdo sexual fazem parte das alucinações descritas por quem vive a experiência. Não é difícil imaginar como, em épocas diferentes, estes pormenores foram interpretados.
Nas aldeias, onde o dia a dia era feito de trabalho e de comida, a explicação apontava para uma criatura que castigava quem ceava demais. Nos conventos e nos tribunais eclesiásticos, onde o pecado e a tentação ocupavam o centro das preocupações, a mesma experiência ganhou a forma de demónios sedutores.
Esta leitura não agrada a todos. Para quem acredita em entidades espirituais, as semelhanças não provam que sejam invenções, mas sim que o mesmo tipo de ser foi visto por povos diferentes, cada um dando-lhe o seu nome. A coerência dos relatos seria, nessa visão, um sinal da sua realidade.
Seja qual for a resposta, a comparação diz muito sobre nós. Perante uma experiência que assusta e que não se explica, cada cultura recorre às figuras que já conhece. A Pesadeira, o íncubo e o súcubo podem ser três rostos para a mesma noite.
CASO Nº0714
Em Investigação
Pesadeira, íncubos e súcubos: o mesmo fenómeno com nomes diferentes?
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