Nas noites de inverno, à volta da lareira, enquanto se descascava milho ou se fiava a lã, as conversas acabavam muitas vezes nos mesmos assuntos: lobisomens, bruxas, almas penadas e a Pesadeira. Ninguém escrevia estas histórias. Passavam de boca em boca, de avós para netos, e cada terra dava-lhes o seu toque.
Nem todos lhe davam a mesma forma. Nuns sítios era uma velha muito magra, de mãos frias e ossudas. Noutros, uma mulher vestida de negro que ninguém via chegar. Havia quem falasse de um bicho pequeno e peludo, quem falasse de um diabrete de barrete vermelho, e quem garantisse que não tinha forma nenhuma — era só um peso que vinha do escuro.
O que quase não mudava eram as regras. A Pesadeira gostava de quem se deitava de barriga para cima e de quem ceava demais. Entrava pela fechadura, pela chaminé ou por uma frincha da janela. E sentava-se no peito de quem dormia, de modo que a pessoa acordava sem ar, sem voz e sem conseguir mexer um dedo.
Os conselhos também se repetiam. Não se devia ir para a cama logo a seguir ao jantar. Era bom rezar antes de adormecer e pôr alguma coisa de ferro perto da cama. E quem estivesse a ser pesado devia tentar mexer um dedo do pé ou rezar por dentro, porque ela não aguentava orações.
Contava-se ainda, em várias zonas, que quem fosse vítima com frequência podia estar a pagar uma promessa esquecida, ou a ser alvo de inveja. Era mais uma forma de dar sentido ao que não se percebia.
Estas memórias estão a desaparecer com as gerações que as guardavam. Os etnógrafos que andaram pelas aldeias no século XX recolheram parte delas, mas muitas nunca foram escritas. Se tens em casa alguém que ainda se lembra destas histórias, vale a pena perguntar-lhe — antes que a Pesadeira fique só nos livros.
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