Uma luz intensa entra pela janela. O corpo não se mexe. Figuras pequenas, de olhos grandes e escuros, aproximam-se da cama. Há uma sensação de ser levado, examinado, tocado. Desde os anos 1960, milhares de pessoas em todo o mundo descreveram algo assim — e acreditam ter sido raptadas por seres de outro planeta.
O primeiro caso a ficar famoso foi o do casal norte-americano Betty e Barney Hill, que em 1961 disse ter sido levado a bordo de uma nave numa estrada de New Hampshire. Nas décadas seguintes, livros como "Communion", do escritor Whitley Strieber, publicado em 1987, tornaram a imagem do extraterrestre cinzento conhecida em todo o lado.
Ao analisar os relatos, os investigadores notaram um padrão. Muitos acontecem à noite, na cama, ao adormecer ou ao acordar. A pessoa não se consegue mexer, sente uma presença no quarto, vê luzes ou figuras, sente pressão no corpo e, por vezes, a sensação de flutuar. São exatamente os ingredientes de um episódio de paralisia do sono com alucinações.
A psicóloga Susan Clancy, da Universidade de Harvard, estudou pessoas que diziam ter sido abduzidas e publicou em 2005 o livro "Abducted". A sua conclusão foi que muitas destas memórias nasciam de episódios de paralisia do sono, interpretados à luz das imagens de extraterrestres que a cultura popular tinha espalhado. Em alguns casos, sessões de hipnose ajudavam a "completar" a história com pormenores que não estavam lá no início.
Isto não quer dizer que estas pessoas mintam. O medo, a paralisia e as visões são reais e muitas vezes traumatizantes. O que muda é a interpretação: na Idade Média falava-se de demónios, nas aldeias portuguesas da Pesadeira, e na era espacial passou a falar-se de naves e alienígenas.
A pergunta sobre vida fora da Terra continua em aberto. Mas, no que toca às abduções noturnas, a paralisia do sono é hoje uma das explicações mais estudadas — e mostra como cada época veste os seus medos com as figuras do seu tempo.
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