Antes da luz elétrica, a noite era longa e escura, e o momento de apagar a candeia trazia um certo receio. Não admira que o povo português tenha criado um repertório enorme de pequenas orações para dizer ao deitar. Algumas ainda se ouvem hoje, sussurradas por avós aos netos.
A mais conhecida é talvez esta: "Com Deus me deito, com Deus me levanto, com a graça de Deus e do Espírito Santo." Existem muitas variantes, umas mais curtas, outras que acrescentam pedidos de proteção para a casa, para os filhos ou para os animais.
Outra reza muito espalhada pede a guarda dos anjos nos quatro cantos da cama. As versões mudam de aldeia para aldeia, mas a ideia repete-se: a cama é imaginada como um pequeno território protegido, com um anjo ou um santo em cada canto, e ninguém de fora pode entrar.
As crianças aprendiam cedo a oração ao Anjo da Guarda: "Anjo da Guarda, minha companhia, guardai a minha alma de noite e de dia." Era muitas vezes a primeira reza que se sabia de cor, e ficava para a vida inteira.
Havia também orações próprias contra os males noturnos. Invocavam São Bento, São Cipriano ou a Senhora da Conceição, e pediam proteção contra "maus sonhos", "más visões" e "coisas ruins". Diziam-se três vezes, acompanhadas do sinal da cruz, e terminavam com um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
Para quem acreditava na Pesadeira, estas rezas eram a primeira linha de defesa. Uma alma entregue a Deus antes de adormecer, dizia-se, não podia ser incomodada.
A psicologia moderna olha para estas práticas com outro olhar: um ritual repetido todas as noites acalma a mente, marca a passagem para o descanso e reduz a ansiedade. Seja qual for a leitura, estas pequenas orações são um património precioso — e continuam a ajudar muita gente a fechar os olhos em paz.
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