Nas casas antigas do interior português, a mesa de cabeceira escondia por vezes objetos que hoje parecem estranhos: uma tesoura aberta, uma faca, um prego, uma mão-cheia de sal. Não estavam ali por esquecimento. Eram defesas contra a Pesadeira e outros males da noite.
A tesoura aberta é talvez a proteção mais conhecida. Aberta, forma uma cruz, e a cruz era, segundo a tradição, o sinal que nenhum ser maligno conseguia atravessar. Ao mesmo tempo, é feita de ferro, e o ferro tem uma longa fama protetora em toda a Europa. Havia quem a pusesse debaixo da almofada, quem a deixasse sobre a cómoda e quem a pendurasse atrás da porta do quarto.
O ferro, em geral, era visto como uma barreira contra fadas, bruxas e espíritos. Pregos, ferraduras, facas e chaves antigas serviam o mesmo fim. Uma explicação popular dizia que os seres do outro mundo eram mais antigos do que o ferro e, por isso, não o suportavam.
O sal tinha outro papel: purificar. Espalhado nos cantos do quarto, posto num pires debaixo da cama ou atirado para o limiar da porta, afastaria as más energias. O sal era também usado nas benzeduras e nas bênçãos da casa, o que reforçava a sua fama de guardião contra tudo o que viesse de fora.
A estas defesas juntavam-se outras: um ramo de alecrim ou de arruda, um crucifixo, água benta, uma vela acesa ao santo da devoção da casa. E, claro, os conselhos práticos que as avós repetiam: não ceares demasiado e não te deitares de costas.
É importante separar as coisas. Estes objetos fazem parte de um património de crenças populares, não de um tratamento. Quem sofre episódios frequentes de paralisia do sono deve falar com um médico. Mas uma tesoura aberta na mesa de cabeceira continua a ser, para muitas famílias, um gesto de tranquilidade herdado de outras gerações.
CASO Nº0701
Lenda Local
Tesoura aberta, sal e ferro: as proteções populares contra a Pesadeira
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