Em mandarim, a expressão é curta e assustadora: "gui ya chuang", escrita 鬼压床. "Gui" é fantasma, "ya" é pressionar e "chuang" é cama. Um fantasma que se deita sobre a cama — ou sobre quem está nela.
Na China, esta é a forma mais conhecida de falar da paralisia do sono. A pessoa acorda durante a noite, percebe onde está, mas o corpo não responde. Sente um peso sobre o peito ou sobre as pernas, por vezes ouve ruídos e tem a certeza de que há alguém no quarto. A explicação tradicional é simples: um espírito dos mortos veio visitá-la.
Na cultura chinesa, os fantasmas não são sempre maus. Podem ser antepassados esquecidos, almas sem descendentes que lhes façam oferendas ou espíritos que morreram de forma violenta. A visita noturna seria, em muitos casos, um pedido de atenção. Daí a importância das oferendas e da limpeza dos túmulos em datas como o festival Qingming.
As proteções populares variam de região para região. Há quem ponha objetos metálicos ou tesouras debaixo da almofada, quem pendure amuletos taoistas de papel amarelo com caracteres vermelhos, e quem evite dormir com os pés virados para a porta. Espelhos virados para a cama são desaconselhados, porque se diz que atraem presenças.
A medicina tradicional chinesa tem outra leitura: associa estes episódios a desequilíbrios de energia no corpo, ao cansaço e às emoções reprimidas. Já a medicina ocidental fala de um despertar parcial durante a fase REM, em que a mente acorda antes dos músculos.
Tal como noutros países, a expressão sobreviveu à ciência. Muitos jovens chineses falam de "gui ya chuang" meio a brincar, meio a sério, depois de uma noite de estudo ou de trabalho. E a pergunta fica no ar, igual em Pequim ou em Portugal: foi só o corpo, ou havia mesmo alguém ali?
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