Na Turquia, quando alguém acorda sem se conseguir mexer, com a sensação de algo pesado no peito, diz-se que foi apanhado pelo karabasan. A palavra junta "kara", negro, e "basan", o que pressiona. É, literalmente, "aquele que esmaga no escuro".
A tradição descreve o karabasan como um ser escuro, por vezes um jinn, que se senta sobre quem dorme e o tenta sufocar. Em muitas famílias turcas, o karabasan é tratado como algo que toda a gente conhece: fala-se dele à mesa com a naturalidade com que em Portugal se falava da Pesadeira.
No mundo árabe, a palavra "kabus" significa pesadelo, e o fenómeno da paralisia do sono é muitas vezes chamado "jathoom", de uma raiz ligada à ideia de algo que se deita ou se abate sobre alguém. A explicação mais comum é espiritual: um jinn ou um espírito maligno que ataca durante o sono.
Para se protegerem, muitas famílias muçulmanas recitam versículos do Alcorão antes de dormir, em especial o Versículo do Trono, e as últimas suratas, que são tradicionalmente usadas como pedido de proteção. Também se recomenda dormir em estado de pureza ritual e deitado sobre o lado direito.
Estas crenças têm sido estudadas pela ciência. Uma equipa que incluiu o investigador Baland Jalal publicou em 2021 um estudo sobre as crenças acerca do karabasan na Turquia. Trabalhos semelhantes no Egito mostraram que quem atribui a paralisia a um ataque sobrenatural tende a sentir mais medo durante os episódios e a pensar mais neles depois.
Este é talvez o ponto mais interessante: a forma como explicamos a experiência muda a forma como a vivemos. O corpo faz o mesmo em Istambul, no Cairo ou em Bragança — mas o nome que lhe damos pode transformar uns segundos de confusão numa noite de terror.
CASO Nº0698
Lenda Local
Karabasan e kabus: a paralisia do sono na Turquia e no mundo árabe
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