No Japão, quase toda a gente conhece a palavra e muitos já a usaram para descrever uma noite má: "tive kanashibari". Escreve-se 金縛り e, à letra, significa algo como "amarrado com metal" — a sensação de estar preso por correntes invisíveis, sem conseguir mover o corpo.
A origem do termo é curiosa. Vem de práticas do budismo esotérico, em que certos rituais invocavam o poder de Fudō Myōō, uma divindade protetora, para imobilizar um inimigo ou um espírito maligno. Com o tempo, a expressão passou da magia religiosa para a linguagem comum e acabou por dar nome à experiência noturna de acordar paralisado.
Na tradição popular, o kanashibari era atribuído a forças sobrenaturais: espíritos vingativos, os chamados yūrei, ou criaturas do folclore como a raposa e o tanuki, capazes de possuir ou enfeitiçar quem dormia. Em certas histórias, acordar paralisado num quarto de hotel ou numa casa antiga era sinal de que ali vivia uma presença que não queria ser incomodada.
O cinema de terror japonês adorou o tema. As figuras femininas de cabelos negros compridos, paradas aos pés da cama, que ficaram famosas no mundo inteiro, devem muito às descrições tradicionais destas noites.
O mais interessante é que o Japão foi também um dos países onde a ciência mais estudou o fenómeno. Investigadores japoneses fizeram inquéritos a estudantes e concluíram que uma parte considerável já tinha vivido pelo menos um episódio. Muitos associavam-no a épocas de exames, falta de sono e horários trocados.
Hoje, a palavra kanashibari convive com a explicação médica sem a apagar. Um jovem japonês pode saber perfeitamente que o corpo fica imóvel durante a fase REM e, ainda assim, dizer que "algo" o prendeu à cama. Entre o termo antigo e o diagnóstico moderno, a experiência continua a ser a mesma: acordar e descobrir que o corpo não obedece.
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