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CASO Nº0695 Lenda Local

A Pisadeira brasileira: uma herança portuguesa do outro lado do Atlântico

Nos serões do interior de São Paulo, de Minas Gerais e de Goiás, os avós avisavam os netos: quem se deita de barriga cheia e de costas arrisca-se a receber a visita da Pisadeira. Para um português, a história soa estranhamente familiar — e não é por acaso.
Segundo o folclore brasileiro, a Pisadeira é uma velha magríssima, de dedos compridos e unhas enormes e sujas, cabelos desgrenhados, olhos vermelhos e uma gargalhada aguda. Vive escondida nos telhados e espera que a família adormeça. Quando encontra alguém a dormir de barriga para cima depois de uma refeição pesada, desce e pisa-lhe o peito com toda a força.
A vítima fica consciente, vê e ouve o que se passa à volta, mas não consegue mexer-se nem gritar. É exatamente a descrição que em Portugal se fazia da Pesadeira, a criatura que se sentava no peito de quem dormia nas aldeias do Norte e da Beira. O nome mudou uma letra, de "pesar" para "pisar", mas o essencial ficou intacto.
Os estudiosos do folclore veem aqui um exemplo claro de como as crenças viajaram com os colonos, a partir do século XVI. Levadas nas conversas e nos costumes, as histórias portuguesas misturaram-se com tradições indígenas e africanas e ganharam traços novos. A Pisadeira dos telhados é uma dessas adaptações: nasceu da mesma raiz, mas cresceu noutra terra.
O folclorista Cornélio Pires registou a figura no início do século XX, e desde então ela aparece em livros, bandas desenhadas e até em jogos de vídeo. Tornou-se, para muitos brasileiros, a explicação popular para aquela noite em que acordaram sem conseguir mexer um músculo.
A ciência chama-lhe paralisia do sono e explica-a pela forma como o corpo fica imóvel durante os sonhos. Mas é curioso pensar que, dos dois lados do Atlântico, gerações inteiras deram rosto ao mesmo medo — e que esse rosto começou por ser português.
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