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CASO Nº0694 Lenda Local

O "Pesadelo" na Galiza: a entidade que pesa no peito

Do outro lado do rio Minho, a Galiza partilha com o Norte de Portugal uma língua de raiz comum, uma paisagem parecida e um mesmo imaginário noturno. Não surpreende, por isso, que lá também exista um ser que se senta sobre quem dorme.
Em galego, "pesadelo" significa sonho angustiante, e a palavra vem, tal como em português, de "pesar". Mas na tradição popular o pesadelo nem sempre foi só um sonho: em várias zonas era visto como uma presença concreta que entrava de noite nas casas e se instalava sobre o peito do adormecido, provocando falta de ar, angústia e incapacidade de se mexer.
A mitologia galega é rica em pequenos seres domésticos, os trasnos, muito parecidos com os duendes portugueses. Entre eles, os estudiosos do folclore falam do tardo, um ser noturno associado precisamente aos pesadelos e à opressão no peito durante o sono. As descrições variam muito: pequeno, escuro, por vezes com aspeto de animal ou de homenzinho de barrete.
Como em Portugal, as proteções eram sobretudo domésticas: rezar antes de deitar, não dormir de costas, evitar ceias pesadas, deixar objetos de ferro ou uma tesoura perto da cama. Em algumas tradições, os animais da casa, como cães e gatos, eram vistos como guardiões capazes de sentir estas presenças.
O fenómeno não é exclusivo do Noroeste. Na Catalunha fala-se da Pesanta, descrita como um ser negro e peludo que se senta no peito de quem dorme. Mais longe, na Terra Nova, no Canadá, é a "Old Hag", a velha; no Japão, o "kanashibari". Os nomes mudam, mas a experiência descrita é praticamente idêntica.
Para a ciência, este paralelo entre culturas é um dos melhores indícios de que a origem é comum: a paralisia do sono, uma experiência humana universal que cada povo vestiu com as suas próprias figuras.
Na Galiza, tal como em Trás-os-Montes, o pesadelo continua a ser mais do que uma palavra: é memória de um tempo em que a noite tinha habitantes.
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