Nas aldeias de Trás-os-Montes, do Minho e da Beira, durante gerações, havia uma explicação para as noites em que alguém acordava sem se conseguir mexer: tinha-lhe aparecido a Pesadeira. Mais do que um monstro, era parte de um conjunto de crenças e cuidados que moldavam a hora de deitar.
A palavra vem de "pesar", e a imagem é essa: um ser que se senta ou se deita sobre o peito de quem dorme, tirando-lhe o ar e a força. As descrições variam de terra para terra. Nuns sítios é uma mulher velha e magra; noutros, uma sombra sem forma definida; noutros ainda, um pequeno ser que entra pelas frinchas das portas.
Segundo a tradição, a Pesadeira tinha preferências. Visitava sobretudo quem se deitava de barriga para cima e quem tinha jantado demasiado. Há quem associe esta ideia às ceias fartas das matanças e das festas, e às noites longas de inverno.
Os costumes para a afastar eram muitos e variavam entre famílias:
• Não dormir de costas.
• Não ir para a cama de estômago cheio.
• Rezar antes de adormecer, sobretudo ao Anjo da Guarda.
• Deixar uma tesoura aberta ou um objeto de ferro junto à cama, porque o ferro era tido como proteção contra seres da noite.
• Pôr um raminho bento, recebido no Domingo de Ramos, à cabeceira, como se fazia contra outros males da noite.
Em muitas terras, a Pesadeira era também um tema de serão: falava-se dela à lareira, meio a sério, meio a brincar, e os mais novos aprendiam assim a ter respeito pela noite.
Com a luz elétrica, a televisão e a saída dos jovens para as cidades, a crença foi perdendo força, mas não desapareceu. Ainda hoje há quem use a expressão "deu-me a Pesadeira" para descrever uma noite má.
A medicina reconhece nestes relatos a paralisia do sono. Mas a Pesadeira permanece como património imaterial do Norte: uma forma antiga e poética de dar nome ao medo.
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