Pequeno, travesso e de barrete vermelho na cabeça, o Fradinho da Mão Furada é uma das figuras mais curiosas da mitologia portuguesa. Ao contrário de muitos seres da noite, não é simplesmente mau: é ambíguo, tão capaz de ajudar como de atormentar.
Segundo a tradição, é um duende caseiro que entra nos quartos durante a noite pela fechadura da porta. Uma vez lá dentro, sobe para a cama e escarrancha-se sobre quem está a dormir, provocando pesadelos e aquela sensação de peso que tantos conhecem. É por isso que muitos o veem como uma versão portuguesa dos antigos espíritos que "pesam" sobre o sono.
Mas o Fradinho tem outra face. Conta-se que também concede favores aos donos das casas onde vive: faz render o azeite, crescer o mel, multiplicar os bens e até descobrir tesouros escondidos. Nalgumas versões, é chamado Diabinho da Mão Furada, e a própria "mão furada" é explicada pela sua generosidade — as mãos seriam rotas de tanto dar.
Diz-se ainda que quem conseguir tirar-lhe o barrete vermelho ganha poder sobre ele. O duende, desesperado por recuperar a peça, estaria disposto a revelar onde se esconde um tesouro. Este pormenor aproxima-o de outros duendes da Península Ibérica, como o trasgo das Astúrias, também de barrete vermelho e mão furada.
A figura chegou à literatura. No século XVIII circulou um texto satírico intitulado "Obras do Diabinho da Mão Furada", de autoria discutida e por vezes atribuído a António José da Silva, o Judeu, que aproveitou esta personagem popular.
Para os estudiosos do folclore, o Fradinho junta duas funções que eram comuns nos duendes domésticos: explicar os pesadelos e as pequenas desgraças da casa, mas também a sorte inesperada.
Hoje é pouco lembrado, mas continua a ser um dos rostos mais originais da noite portuguesa — um ser que tanto tira o sono como pode trazer fortuna.
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