O súcubo nasceu em tratados de teologia e manuais de inquisidores, mas hoje é mais fácil encontrá-lo num ecrã do que num livro antigo. A figura da demónia sedutora mostrou uma capacidade rara de se reinventar a cada geração.
O salto para a arte deu-se cedo. Em 1781, o pintor Henry Fuseli expôs "O Pesadelo", onde um pequeno demónio se senta sobre o peito de uma mulher adormecida — imagem que ainda hoje ilustra artigos sobre paralisia do sono. No século XIX, Dante Gabriel Rossetti pintou "Lady Lilith", uma mulher absorta a pentear os longos cabelos, e Honoré de Balzac incluiu um conto intitulado "O Súcubo" nos seus "Contes drolatiques".
No século XX, o súcubo passou para o fantástico popular. O jogo de tabuleiro "Dungeons & Dragons" transformou-o numa criatura com regras e poderes definidos, modelo seguido por inúmeros videojogos. Em 1994, a série de luta "Darkstalkers", da Capcom, lançou Morrigan Aensland, uma súcuba que se tornou uma das personagens mais reconhecíveis dos jogos japoneses.
A televisão também quis a sua parte. A série canadiana "Lost Girl" (2010–2015) tinha como protagonista Bo, uma súcuba que se alimenta da energia sexual dos outros e tenta aprender a controlar o seu dom. No cinema, "Jennifer's Body" (2009) apresentou uma estudante transformada num ser demoníaco que seduz e devora rapazes — uma leitura muito próxima do mito.
Porque é que o súcubo nunca sai de moda? Talvez porque junta dois temas que fascinam sempre: o desejo e o medo. Nas versões mais recentes, a personagem ganhou profundidade e deixou de ser apenas vilã; muitas vezes é uma figura ambígua, dividida entre a sua natureza e a vontade de ser outra coisa.
Entre o demónio medieval e a heroína de série, a distância é grande. Mas a raiz é a mesma: a noite, o quarto e aquilo que não se consegue explicar.
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