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CASO Nº0675 Lenda Local

Súcubos e Lilith na Cabala: a rainha da noite nos textos místicos judaicos

A Cabala é a tradição mística do judaísmo, um sistema complexo que procura compreender a natureza de Deus e da criação. Foi nos seus textos medievais que Lilith deixou de ser apenas um demónio popular e ganhou um lugar preciso numa verdadeira arquitetura do mal.
O grande marco é o Zohar, o "Livro do Esplendor", que circulou em Castela no final do século XIII. A tradição atribui-o ao sábio Shimon bar Yochai, do século II, mas os historiadores consideram que foi escrito ou compilado por Moisés de León. Na mesma época, o cabalista Isaac ha-Cohen, também castelhano, descreveu num tratado as forças do "lado esquerdo" e apresentou Samael e Lilith como um casal demoníaco, espelho sombrio da união sagrada.
Na visão cabalística, o mal não é uma criação independente, mas as "cascas" (kelipot) que envolvem e escondem a luz divina. Lilith surge como uma dessas forças: sedutora, noturna, capaz de se aproximar dos homens durante o sono. Segundo o Zohar, dessas uniões noturnas nasceriam espíritos sem corpo — uma ideia que se cruza diretamente com o mito europeu do súcubo.
Os textos falam ainda de outras figuras femininas do mesmo mundo, como Naamah, também associada à sedução dos homens adormecidos. Em alguns escritos, os seus nomes aparecem lado a lado como rainhas dos demónios.
Contra estas presenças, a tradição judaica sempre recomendou meios de proteção espiritual: a oração do Shemá antes de dormir, amuletos com nomes de anjos e a recitação de salmos. O que interessa aos cabalistas não é tanto o medo, mas o equilíbrio: a sombra existe porque a luz existe.
Convém lembrar que a Cabala é interpretada de formas muito diferentes e que muitos dos seus leitores veem estas figuras como símbolos de forças psicológicas e morais, e não como seres literais. Ainda assim, foi ali que Lilith ganhou a sua forma mais elaborada — e mais inquietante.
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