Muito antes de os demonólogos medievais falarem de súcubos, os gregos contavam às crianças a história de Lâmia. Era um nome que se usava para meter medo, e que atravessou mais de dois mil anos até chegar à poesia romântica e à pintura.
Segundo a versão mais conhecida, Lâmia era uma rainha da Líbia, de grande beleza, amada por Zeus. Hera, ciumenta, vingou-se matando ou roubando os seus filhos. Enlouquecida de dor, Lâmia transformou-se num monstro que passou a raptar e devorar os filhos das outras mulheres. Algumas fontes antigas, como o historiador Diodoro Sículo, registam versões desta lenda.
Há um pormenor estranho e muito citado: Zeus ter-lhe-ia dado o poder de retirar os próprios olhos, para que pudesse descansar da visão constante da sua desgraça. Com o tempo, a sua imagem foi-se aproximando da de uma serpente, com corpo de réptil e rosto ou tronco de mulher.
A ligação à sedução surge sobretudo com o plural "lâmias", criaturas que assumiam forma feminina para atrair jovens e alimentar-se deles. O episódio mais famoso está na "Vida de Apolónio de Tiana", de Filóstrato: em Corinto, o jovem Menipo está prestes a casar com uma mulher misteriosa, mas o sábio Apolónio desmascara-a como uma criatura sobrenatural, e ela desaparece com todo o seu banquete ilusório.
Foi esta história que inspirou o poema "Lamia" (1820), de John Keats, e mais tarde as pinturas de John William Waterhouse, que retratou a figura em 1905 e 1909.
A Lâmia antiga é, portanto, uma mistura de mãe enlutada, papão infantil e sedutora mortal. Não é exatamente uma súcuba, mas foi uma das peças que os autores medievais e renascentistas usaram para construir a imagem da mulher-demónio.
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