A Península Ibérica tem as suas próprias versões da mulher sobrenatural que encanta os viajantes. Nas Astúrias chamam-lhe xana; no País Basco, lamia ou lamiña. Ambas vivem junto à água e ambas guardam segredos que poucos conseguem desvendar.
As xanas são as fadas da mitologia asturiana. Descrevem-se como mulheres pequenas e belíssimas, de cabelos longos e loiros, que habitam fontes, rios e grutas. Conta-se que saem ao amanhecer, sobretudo na manhã de São João, para pentear o cabelo com pentes de ouro e estender meadas de fio precioso ao sol. Quem as surpreende pode receber um tesouro ou ser vítima de um feitiço.
Há um pormenor inquietante na lenda das xanas. Segundo a tradição, por vezes trocavam os seus filhos, os "xaninos", por bebés humanos, que levavam para as grutas. As mães desconfiadas recorriam a truques para obrigar o xanino a revelar a sua natureza.
As lamias bascas partilham muitos traços com as xanas: vivem em rios e fontes, penteiam os cabelos com pente de ouro e aparecem de noite. Mas têm um sinal que as denuncia: pés de pato ou de cabra, escondidos sob as vestes. Algumas lendas falam de pastores que se apaixonaram por elas, com finais quase sempre infelizes.
O nome "lamia" veio da mitologia grega, onde designava uma criatura bem mais sombria. Ao chegar à Península, suavizou-se e fundiu-se com antigos espíritos das águas.
Quem conhece o folclore português reconhece aqui a família das mouras encantadas. As semelhanças, o pente de ouro, a água, a manhã de São João, o tesouro, mostram um fundo comum ibérico, anterior às fronteiras. A xana e a lamia não são súcubos, mas herdam delas o mesmo fascínio: a beleza que atrai e esconde um perigo.
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