Não há região de Portugal sem uma moura encantada. Vivem em fontes, penedos, castelos arruinados e antas, e aparecem, segundo a tradição, a quem tiver a sorte, ou o azar, de passar no sítio certo à hora certa.
A lenda mais repetida descreve uma jovem de beleza extraordinária, sentada junto a uma fonte, a pentear os longos cabelos com um pente de ouro. Aparece sobretudo na madrugada de São João, e dirige-se aos rapazes que passam, pedindo ajuda para quebrar o encanto que a prende há séculos.
A sedução é o centro destas histórias, mas não da forma demoníaca das súcubas. A moura promete riqueza, amor ou tesouros escondidos, e em troca exige uma prova: guardar segredo, não olhar para trás, beijar uma serpente em que ela se transforma. Quase sempre o rapaz falha, e a moura fica encantada por mais cem anos, enquanto ele perde o que lhe fora prometido.
A ligação à serpente é frequente e muito antiga. Em muitas lendas, a moura assume forma de cobra durante o dia e só à noite ou em datas especiais recupera a forma humana. Os estudiosos veem aqui ecos de cultos pré-cristãos às águas e à terra, muito anteriores aos muçulmanos que dão nome à personagem.
O folclorista José Leite de Vasconcelos recolheu dezenas destas lendas no final do século XIX, e em 2006 o investigador Alexandre Parafita publicou "A Mitologia dos Mouros", com um vasto levantamento feito sobretudo no Norte do país.
Ao contrário das súcubas, as mouras raramente são malévolas. São mais prisioneiras do que predadoras, presas entre dois mundos. Talvez por isso continuem tão vivas: em cada aldeia há um penedo onde alguém garante que, numa noite de São João, ela ainda se deixa ver.
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