Para o homem medieval, o sonho não era um simples filme da mente. Era uma porta, e por essa porta podiam entrar anjos, mortos e demónios. É neste território incerto, entre o sono e a vigília, que a súcuba ganhou forma.
Os monges dos primeiros séculos do cristianismo já se preocupavam com os sonhos de conteúdo sexual. João Cassiano, no século V, escreveu sobre as poluções noturnas e sobre a forma como os pensamentos do dia podiam regressar durante a noite. A pergunta que atormentava os religiosos era simples: aquele sonho era culpa minha ou obra de um espírito?
Com o tempo, a resposta passou a incluir a súcuba. Se o sonho era demasiado vívido, repetido ou impossível de afastar pela oração, atribuía-se a uma presença exterior. Tomás de Aquino chegou a defender, na sua obra teológica, que um demónio podia agir como súcubo e depois como íncubo, usando o que recolhia de um homem para interferir na conceção.
A tradição também contava histórias exemplares. O cronista Walter Map, no século XII, registou a lenda de Meridiana, uma mulher sobrenatural que teria aparecido ao jovem Gerberto, o futuro papa Silvestre II, oferecendo-lhe riqueza e saber. A história é claramente lendária, mas mostra como a ideia de uma sedutora vinda dos sonhos circulava nos meios cultos.
No povo, a interpretação era mais prática. Sonhar muitas vezes com a mesma mulher desconhecida era sinal de alerta; acordar exausto depois de um sonho agradável, ainda mais. Rezava-se antes de dormir, benzia-se a cama e evitava-se adormecer com "maus pensamentos".
Hoje sabe-se que os sonhos eróticos são normais e fazem parte do funcionamento do cérebro durante o sono REM. Mas a forma como os nossos antepassados os leram diz muito sobre o medo, a culpa e o mistério que sempre rodearam a noite.
CASO Nº0659
Lenda Local
Súcubos e sonhos: o que a tradição dizia sobre as visitas noturnas
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