Quando a Europa trocou os tratados de demonologia pelos romances, a súcuba não desapareceu. Mudou apenas de lugar: saiu dos processos da Inquisição e entrou nas estantes, transformada em personagem literária ambígua, ao mesmo tempo sedutora e fatal.
Um dos marcos é "O Diabo Enamorado" ("Le Diable amoureux"), de Jacques Cazotte, publicado em 1772. Um jovem invoca o diabo e este aparece-lhe sob a forma de Biondetta, uma rapariga encantadora que se apaixona por ele. O leitor nunca sabe bem se ela é demónio ou mulher, e essa dúvida tornou-se uma marca do género.
Poucos anos depois, Matthew Lewis publicou "O Monge" (1796), um dos romances mais escandalosos do gótico inglês. A personagem Matilde seduz o monge Ambrósio e conduz a sua queda; no desfecho, sugere-se que seria um agente do demónio desde o início. É talvez a súcuba mais célebre da literatura em língua inglesa.
O Romantismo francês deu-lhe outro rosto. Em "A Morte Amorosa" ("La Morte amoureuse", 1836), Théophile Gautier conta a história de um padre que, todas as noites, vive em sonho uma segunda vida ao lado da cortesã Clarimonde, uma morta que se alimenta do seu sangue. A fronteira entre súcuba e vampira dissolve-se por completo.
A poesia também a acolheu. Samuel Taylor Coleridge criou a misteriosa Geraldine em "Christabel", e John Keats escreveu "Lamia" (1820), inspirado na antiga lenda grega da mulher-serpente que seduz um jovem em Corinto. Mais tarde, "Carmilla" (1872), de Sheridan Le Fanu, levou a figura da visitante noturna para o terror vitoriano.
Em todas estas obras, a súcuba deixa de ser só um demónio. Torna-se símbolo do desejo proibido, da culpa e do medo de perder o controlo, temas que os autores românticos exploraram como ninguém.
CASO Nº0656
Confirmado
A súcuba na literatura romântica e gótica: das páginas do século XVIII ao terror vitoriano
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