Poucos temas inspiraram tantos artistas como as tentações de Santo Antão, o eremita egípcio que, segundo a tradição, foi atormentado por demónios no deserto. O assunto permitia pintar o que normalmente era proibido: monstros, delírios, sedução e medo.
Para os portugueses, a obra mais importante está em Lisboa. O tríptico "As Tentações de Santo Antão", de Hieronymus Bosch, pintado por volta de 1500, pertence ao Museu Nacional de Arte Antiga. É um universo de criaturas híbridas, edifícios estranhos, peixes voadores e cenas enigmáticas, no meio das quais o santo reza, imóvel. Entre as tentações surge uma figura feminina nua, junto a uma árvore oca — alusão clara à sedução.
Antes de Bosch, o gravador alemão Martin Schongauer criou, por volta de 1470, uma gravura em que Antão é arrancado do chão por demónios no ar. A imagem teve tanta fama que um jovem Michelangelo pintou uma versão dela, hoje no Kimbell Art Museum, nos Estados Unidos.
Matthias Grünewald incluiu o tema no Retábulo de Isenheim, pintado entre 1512 e 1516 e hoje no Museu Unterlinden, em Colmar. O painel mostra o santo agredido por monstros de pesadelo, com um realismo que ainda impressiona.
Séculos depois, o assunto voltou com força. Paul Cézanne pintou a sua versão por volta de 1877, hoje no Museu de Orsay. Em 1946, Salvador Dalí criou uma das suas obras mais conhecidas: Antão nu, erguendo uma cruz perante cavalos e elefantes de patas longuíssimas, carregados de símbolos de desejo e poder. O quadro, que está em Bruxelas, foi feito para um concurso ligado a um filme de Hollywood, vencido por Max Ernst com a sua própria versão das tentações.
Também a literatura se deixou seduzir: Gustave Flaubert trabalhou durante décadas em "A Tentação de Santo Antão", publicada em 1874.
Olhar para estas obras é ver como cada época imaginou o demónio. As tentações mudam de forma — mas a figura do homem que resiste, sozinho, continua a fascinar.
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