Nos séculos III e IV, milhares de homens e mulheres deixaram as cidades do Egito, da Palestina e da Síria para viver no deserto. Procuravam Deus no silêncio, na oração e no jejum. Mas os textos que deixaram mostram que a solidão não trazia paz imediata: trazia combates, e muitos deles aconteciam de noite.
O mais famoso destes monges foi Santo Antão, cuja vida foi escrita por Santo Atanásio de Alexandria por volta do ano 360. Segundo a biografia, o demónio tentou-o de muitas formas: com saudades da família, com o desejo de riqueza e, de noite, com pensamentos impuros e aparições em forma de mulher. Antão resistia com oração, jejum e vigília.
Os monges desenvolveram uma verdadeira ciência dos pensamentos. Evágrio Pôntico, que viveu no deserto egípcio no século IV, descreveu oito "logismoi", os pensamentos que atacam a alma, entre os quais a gula, a luxúria e a acédia, uma espécie de tédio espiritual a que chamou o "demónio do meio-dia". Esta lista está na origem dos sete pecados capitais.
João Cassiano, que conheceu os monges do Egito e levou os seus ensinamentos para o Ocidente, dedicou uma das suas "Conferências" às ilusões noturnas. Tratava com seriedade os sonhos e as reações involuntárias do corpo durante o sono, distinguindo o que vinha do excesso de comida, da fadiga ou da mente, e o que atribuía à ação do demónio.
As "Sentenças dos Padres do Deserto", coleções de ditos destes monges, estão cheias de conselhos práticos: não confiar nas próprias forças, falar das tentações com um mais velho, não se deixar abater pelas quedas.
Lidas hoje, estas histórias revelam uma notável compreensão da mente humana. Os monges sabiam que o isolamento, o cansaço e a privação intensificam os pensamentos e as visões. Chamavam-lhes demónios; a psicologia fala de desejo, ansiedade e sono perturbado. Em ambos os casos, a noite era o campo de batalha.
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