É frequente ler que os súcubos "aparecem na Bíblia". A verdade é mais complicada. A palavra "súcubo" não existe em nenhum livro bíblico, nem em hebraico, nem em grego, nem no latim da Vulgata. Mas há passagens que, ao longo dos séculos, foram lidas como alusões a estes seres.
A mais citada está em Isaías 34:14. Numa profecia sobre a ruína de Edom, o texto hebraico diz que ali "repousará Lilith", entre animais selvagens e lugares desertos. É a única vez que o nome aparece na Bíblia. São Jerónimo, ao traduzir para latim, usou a palavra "lamia", uma criatura da mitologia greco-romana. As traduções portuguesas atuais preferem muitas vezes "fantasma noturno", "coruja" ou "espectro da noite".
Outra passagem importante é Génesis 6:1-4, onde os "filhos de Deus" se unem às "filhas dos homens" e nascem os nefilins. Alguns textos judaicos antigos, como o Livro de Enoque, que não faz parte do cânone católico, desenvolveram esta história falando de anjos caídos que desejaram mulheres humanas. Mais tarde, teólogos cristãos usaram esta passagem para discutir se espíritos podiam ter relações com humanos.
Há ainda quem veja no livro dos Provérbios, com os seus avisos contra a "mulher estranha" que seduz os homens para a perdição, uma imagem próxima do súcubo. Mas a maioria dos estudiosos lê estas passagens como conselhos morais sobre o adultério, e não como descrições de demónios.
O que a Bíblia faz, de forma clara, é afirmar a existência de espíritos malignos e descrever episódios de possessão, sobretudo nos Evangelhos. Mas não descreve demónios sexuais que visitam pessoas durante o sono.
A figura do súcubo, tal como a conhecemos, é uma construção posterior: nasce da mistura entre textos bíblicos, tradições judaicas, crenças mesopotâmicas e a teologia medieval. Conhecer esta diferença ajuda a perceber de onde vêm as crenças — e o que é interpretação humana sobre o texto sagrado.
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