Poucas figuras mudaram tanto ao longo dos séculos como o íncubo. Começou como espírito da natureza, tornou-se demónio, foi acusado em tribunais, passou para a pintura, para a psicanálise e, por fim, para o cinema e a internet.
Na Antiguidade tardia, Santo Agostinho referiu os relatos sobre os silvanos e faunos a que o povo chamava íncubos, e sobre os seres que os gauleses conheciam como "dusii". Eram ainda figuras ambíguas, próximas dos espíritos dos bosques. Isidoro de Sevilha, no século VII, registou ideias semelhantes nas suas "Etimologias".
Na Idade Média, a teologia arrumou-os na categoria dos demónios. Discutia-se se podiam ter filhos com humanos, e a lenda chegou a atribuir ao mago Merlim um pai íncubo. No final do século XV, o "Malleus Maleficarum" transformou as relações com íncubos numa das provas centrais de bruxaria, com consequências trágicas nos processos que se seguiram.
Com o Iluminismo, os médicos começaram a olhar para o fenómeno de outra forma. O "íncubo" passou a ser também o nome de uma perturbação do sono, o pesadelo com sensação de sufoco. Em 1781, o pintor Henry Fuseli expôs "O Pesadelo", onde uma criatura se senta sobre uma mulher adormecida — uma das imagens mais famosas da história da arte e ainda hoje associada ao tema.
No século XX, o psicanalista Ernest Jones dedicou-lhe o livro "On the Nightmare" (1931), ligando o íncubo aos desejos reprimidos. Mais tarde, o folclorista David Hufford mostrou, a partir de relatos recolhidos na Terra Nova, no Canadá, que a experiência da "velha bruxa" noturna era real e consistente, mesmo em pessoas que nunca tinham ouvido a lenda — e que correspondia à paralisia do sono.
Hoje, o íncubo vive sobretudo na cultura popular: filmes de terror, séries, videojogos, músicas e relatos partilhados na internet. Continua a mudar de forma, como sempre fez. O que não muda é a experiência que está na sua origem — e o medo que ela desperta.
0 respostas
Ainda ninguém respondeu. Sê a primeira pessoa a comentar.
Entra para responder a este relato.