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CASO Nº0643 Lenda Local

Íncubos em Portugal: o que dizem as crenças populares

A palavra "íncubo" nunca foi muito usada nas aldeias portuguesas. Era um termo de padres, de teólogos e de livros. Mas isso não quer dizer que o povo não conhecesse a experiência: simplesmente dava-lhe outros nomes e outras formas.
A mais conhecida é a Pesadeira, ou simplesmente "o pesadelo", o ser que se sentava no peito de quem dormia. A seu lado aparecem figuras aparentadas, como o Fradinho da Mão Furada, um pequeno diabrete de barrete vermelho, e o Tardo, criatura do folclore português e galego que, segundo a tradição, podia surgir na forma de cão, gato ou cabra e importunava quem estava na cama, fazendo-o acordar com um grande pesadelo.
A dimensão sexual das visitas, tão presente nos íncubos europeus, era raramente dita em voz alta. Nas conversas populares falava-se antes do "Tinhoso" ou do "Mafarrico", eufemismos usados para não chamar o demónio pelo nome, e de mulheres que eram "tentadas" durante a noite. Muito do que se sabe chegou por alusões, rezas e conselhos transmitidos em voz baixa.
A Inquisição portuguesa, criada em 1536, também registou acusações de pactos com o Demónio, em que as relações com espíritos surgiam por vezes como parte das confissões. Os historiadores lembram, porém, que estes testemunhos foram muitas vezes obtidos sob pressão e dizem mais sobre os medos da época do que sobre o sobrenatural.
As proteções tradicionais eram as mesmas que valiam contra qualquer mal noturno:
• rezar antes de dormir e fazer o sinal da cruz;
• deixar uma tesoura aberta ou um objeto de ferro junto à cama;
• guardar um raminho de alecrim, oliveira benta ou arruda no quarto;
• não dormir de barriga para cima nem depois de uma ceia pesada.
Hoje, estas crenças sobrevivem sobretudo na memória dos mais velhos e nas histórias contadas à lareira. Mas a experiência que as originou continua viva — e muitos portugueses ainda a reconhecem quando ouvem falar da Pesadeira.
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