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CASO Nº0641 Confirmado

Ludovico Maria Sinistrari e o "De Daemonialitate": o frade que duvidou dos demónios

No final do século XVII, um frade franciscano italiano escreveu um dos tratados mais estranhos da história da demonologia. Chamava-se Ludovico Maria Sinistrari e a sua obra, "De Daemonialitate et Incubis et Succubis", defendia uma tese surpreendente: os íncubos e súcubos talvez não fossem demónios.
Sinistrari nasceu em 1622, em Ameno, no Norte de Itália, e morreu em 1701. Foi professor de filosofia e teologia em Pavia e trabalhou como consultor da Inquisição em Roma, onde se especializou em direito penal eclesiástico. Escreveu também um grande tratado sobre delitos e penas, que chegou a ser incluído no Índice de livros proibidos.
No "De Daemonialitate", o frade começa por distinguir dois crimes: a bestialidade e a "demonialidade", isto é, as relações com espíritos. Depois, argumenta que muitos dos seres descritos como íncubos e súcubos não se comportavam como anjos caídos. Não fugiam de objetos sagrados, pareciam ter paixões, ciúmes e desejos, e procuravam as pessoas por atração, não para as levar à perdição.
A sua conclusão foi ousada: estes seres seriam criaturas racionais intermédias, com um corpo feito de matéria mais subtil do que a nossa, dotadas de alma e, por isso, capazes de salvação ou condenação — algo muito próximo das fadas e dos espíritos elementares do folclore.
O tratado ficou esquecido durante quase dois séculos. O manuscrito foi descoberto em Londres pelo editor francês Isidore Liseux, que o publicou em Paris em 1875, com tradução francesa. A edição despertou enorme curiosidade e foi depois traduzida para inglês, tornando Sinistrari conhecido de ocultistas e historiadores.
Para os estudiosos atuais, o "De Daemonialitate" é um documento precioso sobre a forma como a teologia tentava arrumar crenças populares em categorias lógicas. Para os curiosos do oculto, continua a ser um dos textos mais citados sobre íncubos — escrito, ironicamente, por alguém que duvidava que fossem demónios.
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