No mundo árabe, a palavra para pesadelo é "kabus". Mas, em muitas regiões, a experiência de acordar sem conseguir mexer o corpo, com um peso sobre o peito, tem outro nome: "al-jathoom", termo ligado à ideia de algo que se deita ou se abate pesadamente sobre quem dorme. E, na crença popular, esse algo é muitas vezes um jinn.
Os jinn ocupam um lugar próprio na tradição islâmica. Segundo o Alcorão, foram criados de "fogo sem fumo", tal como os humanos foram criados do barro. Não são necessariamente maus: têm livre-arbítrio, podem ser crentes ou descrentes, e vivem num mundo paralelo ao nosso, normalmente invisível. Os que fazem mal são os que a tradição mais teme.
Entre as crenças populares há histórias de jinn que se apaixonam por pessoas e as visitam de noite, uma ideia que lembra de perto os íncubos e súcubos europeus. Fala-se também do "qarin", o companheiro espiritual que, segundo a tradição, acompanha cada ser humano.
Para a proteção, a prática religiosa recomenda gestos muito concretos antes de dormir: recitar o Versículo do Trono (Ayat al-Kursi), as duas últimas suratas do Alcorão e outras súplicas tradicionais, dormir em estado de pureza ritual e deitar-se sobre o lado direito. Algumas autoridades religiosas lembram também que o fenómeno pode ter causas físicas, como refeições pesadas, stress ou certos medicamentos.
A investigação científica interessou-se por estas diferenças culturais. Estudos que compararam pessoas no Egito e na Dinamarca mostraram que, onde a explicação sobrenatural é mais comum, os episódios de paralisia do sono tendem a ser vividos com muito mais medo e a durar mais na memória. A crença não cria o fenómeno, mas molda a forma como é sentido.
Do Magrebe ao Golfo, o jathoom continua a ser tema de conversa, de consultas a curandeiros religiosos e de noites mal dormidas — prova de que a visita noturna é uma experiência humana partilhada, contada com as palavras de cada fé.
CASO Nº0639
Lenda Local
Jinn, kabus e jathoom: os demónios noturnos na tradição árabe e islâmica
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