Hoje, um sonho erótico é visto como algo natural e sem culpa. Na Idade Média, a questão era levada muito a sério — por monges, teólogos e confessores. Afinal, se alguém sonhava com o que a moral condenava, de quem era a responsabilidade: da pessoa, do corpo ou de um demónio?
Santo Agostinho, nas "Confissões", já se tinha debatido com o problema. Reconhecia que, durante o sono, as imagens do passado voltavam com uma força que ele não conseguia controlar acordado, e perguntava-se até que ponto era responsável pelo que acontecia nos sonhos. A sua resposta abriu caminho a uma ideia importante: aquilo que acontece sem consentimento da vontade não tem o mesmo peso moral.
No final do século VI, o Papa Gregório Magno respondeu a uma dúvida enviada por Agostinho de Cantuária, o missionário de Inglaterra, sobre os sonhos que acompanhavam as poluções noturnas. A resposta, preservada pelo historiador Beda, distinguia três causas: o excesso de comida, a fraqueza natural do corpo e os pensamentos cultivados durante o dia. Só neste último caso havia verdadeira culpa.
A figura do íncubo entrava na discussão como uma quarta possibilidade: a de que um demónio provocasse ou aproveitasse esses sonhos. Os livros penitenciais, que fixavam penitências para cada pecado, chegaram a prever castigos diferentes consoante a pessoa tivesse ou não "consentido" no sonho.
Para as mulheres, a explicação demoníaca tinha um peso especial. Um sonho sexual podia ser interpretado como a visita de um íncubo — e, séculos mais tarde, durante a caça às bruxas, esta ideia tornou-se perigosa, porque um encontro com um demónio passou a ser considerado prova de pacto diabólico.
A ciência moderna explica os sonhos eróticos como parte normal da fase REM, em que o cérebro está muito ativo e o corpo reage de forma involuntária. Mas a forma como a Idade Média os interpretou diz muito sobre a relação entre desejo, culpa e medo — e explica porque é que o íncubo se tornou uma figura tão presente no imaginário europeu.
CASO Nº0636
Confirmado
Íncubos e sonhos eróticos: o que pensava a Idade Média sobre os sonhos proibidos
0 respostas
Ainda ninguém respondeu. Sê a primeira pessoa a comentar.
Entra para responder a este relato.