Antes da luz elétrica, a noite era longa e escura, e o momento de apagar a candeia era vivido com algum receio. Não admira que tantas tradições religiosas tenham criado orações específicas para proteger o sono.
Na liturgia católica, a oração da noite chama-se Completas. Um dos seus hinos mais antigos, o "Te lucis ante terminum", cantado há mais de mil anos em mosteiros de toda a Europa, pede a Deus que afaste os sonhos maus e os fantasmas da noite e que contenha o inimigo, para que o corpo não seja manchado. É, no fundo, uma oração contra os visitantes noturnos, escrita numa linguagem muito sóbria.
Outro texto muito usado é o Salmo 91 (90 na numeração antiga), que diz que quem confia em Deus não temerá o terror da noite. Durante séculos, foi recitado em momentos de medo e usado também em orações de proteção.
A oração a São Miguel Arcanjo, composta no final do século XIX e associada ao papa Leão XIII, pede ao arcanjo que defenda os fiéis contra as ciladas do Demónio. Muitas famílias rezam-na ainda antes de dormir.
Na tradição popular portuguesa, as fórmulas são mais simples e passam de boca em boca. Uma das mais conhecidas diz: "Com Deus me deito, com Deus me levanto, com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo". Juntam-se a ela o Anjo da Guarda, o Pai-Nosso, a Avé-Maria e o sinal da cruz feito sobre a cama ou sobre a almofada.
Em muitas aldeias, as benzedeiras tinham também rezas próprias para crianças assustadas durante a noite ou para quem sofria "do pesadelo", recitadas com um raminho de alecrim ou oliveira benzida.
Seja qual for a tua crença, estes rituais têm um efeito que a psicologia reconhece: acalmam, criam uma rotina e ajudam a mente a desligar. Se, apesar disso, os episódios noturnos se repetirem com frequência ou causarem sofrimento, não hesites em procurar também um médico. A fé e o cuidado com a saúde não se excluem.
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