Na imagem clássica da bruxa europeia, há quase sempre uma noite, uma floresta e um encontro com o Diabo. Esta imagem não nasceu de repente. Foi construída ao longo de séculos, e o íncubo desempenhou nela um papel decisivo.
Na Alta Idade Média, a Igreja tendia a tratar muitas histórias de voos noturnos e encontros com espíritos como ilusões. Um texto canónico conhecido como "Canon Episcopi", difundido a partir do século X, dizia que as mulheres que acreditavam cavalgar de noite com seres sobrenaturais eram vítimas de enganos do Diabo, e não praticantes de verdadeira magia.
A partir do século XV, a perspetiva mudou. Teólogos e juristas começaram a descrever uma seita de bruxas organizada, que se reunia em assembleias noturnas, mais tarde chamadas sabás. Aí, segundo os tratados, as bruxas renegavam a fé, prestavam homenagem ao Demónio e selavam o pacto através de uma união com ele, que assumiria a forma de íncubo.
Esta ideia teve efeitos terríveis. O que antes era visto como um ataque sofrido passou a ser entendido como um ato voluntário. Uma mulher que confessasse sonhos perturbadores podia, sob pressão, transformar-se numa acusada. As confissões, muitas vezes obtidas com tortura, repetiam o guião dos manuais, o que dava aos juízes a falsa impressão de confirmação.
Os historiadores sublinham que o sabá, tal como foi descrito, não existiu. Era uma construção erudita, alimentada por medos religiosos, conflitos locais e crises sociais. Houve inclusive autores da época, como o médico Johann Weyer no século XVI, que defenderam que muitas acusadas sofriam de perturbações e mereciam tratamento, não castigo.
Hoje, a bruxaria moderna reivindica outras raízes, ligadas à natureza e a saberes tradicionais, e rejeita esta imagem demoníaca. Mas o mito do pacto noturno continua presente em filmes, livros e crenças populares.
Perceber como foi criado é uma forma de respeitar as milhares de pessoas que pagaram com a vida uma fantasia de medo coletivo.
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