A mesma noite pode ser contada de duas maneiras. Numa, alguém acorda imobilizado, sente um peso no peito e vê uma figura junto à cama: um demónio veio visitá-lo. Na outra, o cérebro desperta antes do corpo sair da fase REM do sono e produz alucinações. Qual das versões é a verdadeira? Depende de quem responde.
A medicina do sono descreve a paralisia do sono como um estado de transição. Durante o sono REM, em que sonhamos com mais intensidade, os músculos do corpo ficam praticamente desligados, para não "representarmos" os sonhos. Se a consciência regressar antes de esse bloqueio terminar, a pessoa fica acordada mas sem se conseguir mexer. Estudos de revisão estimam que cerca de 8% da população geral passa por isso pelo menos uma vez na vida, com valores bem mais altos em estudantes.
O investigador canadiano J. Allan Cheyne propôs dividir as alucinações destes episódios em três grupos: a sensação de intruso, a experiência de tipo "íncubo", com pressão no peito e dificuldade em respirar, e as sensações de flutuar ou sair do corpo. A semelhança com as descrições antigas é evidente.
Já a tradição espiritual aponta outros critérios. Para muitos crentes, a visita seria diferente quando acontece em plena vigília, quando se repete sempre na mesma casa ou quando deixa marcas físicas inexplicáveis. Estes relatos não foram confirmados cientificamente, mas fazem parte da forma como estas comunidades interpretam o fenómeno.
Um ponto em que ambos os lados costumam concordar: o medo agrava a experiência. Respirar devagar, não lutar contra a imobilidade e tentar mexer apenas um dedo ajuda o episódio a passar mais depressa.
A ciência tem a explicação mais sólida para a esmagadora maioria dos casos. Ainda assim, cada pessoa vive a experiência à sua maneira. Se os episódios forem frequentes, vierem acompanhados de sonolência intensa durante o dia ou de ataques de sono, procura um médico, porque podem estar ligados a outras perturbações do sono que têm tratamento.
CASO Nº0623
Em Investigação
Íncubo ou paralisia do sono? Como a ciência e a tradição distinguem
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