Quando se fala em Inquisição, muita gente imagina fogueiras cheias de bruxas. A realidade histórica é mais complexa — e, em certos pontos, surpreendente.
Houve várias inquisições. A medieval, criada no século XIII, perseguia sobretudo heresias. A espanhola nasceu em 1478; a portuguesa foi estabelecida em 1536, com tribunais em Lisboa, Évora e Coimbra, e também em Goa, e só foi extinta em 1821. A romana foi reorganizada em 1542. Cada uma teve prioridades diferentes, e a maior parte dos seus processos não dizia respeito a feitiçaria.
A ideia de um pacto com o Demónio, porém, estava bem presente no pensamento da época. Os teólogos distinguiam o pacto expresso, feito conscientemente com o Diabo, do pacto tácito, que estaria escondido em superstições e rezas não autorizadas. Nos interrogatórios surgiam por vezes perguntas sobre encontros noturnos com demónios, influenciadas pelos tratados de demonologia que circulavam pela Europa.
Muitos historiadores sublinham um dado importante: as grandes caças às bruxas, com execuções em massa, foram mais intensas em regiões do centro da Europa, muitas vezes julgadas por tribunais civis e locais. Nos países ibéricos, as inquisições tenderam a tratar grande parte destes casos como superstição, ignorância ou fraude, aplicando penitências, açoites ou desterro. As condenações à morte por bruxaria em Portugal foram raras quando comparadas com outros países.
Isso não torna o sistema menos duro. Os processos baseavam-se em denúncias, muitas vezes de vizinhos, e o medo da delação marcava a vida das comunidades. Mulheres pobres, curandeiras e benzedeiras estavam entre os alvos mais expostos.
Os arquivos da Inquisição portuguesa, hoje guardados na Torre do Tombo, são uma fonte preciosa para estudar crenças populares: rezas, amuletos, medos noturnos e remédios de aldeia ficaram registados nas palavras de quem era interrogado.
Olhar para esta história com rigor ajuda a perceber como o medo do sobrenatural pode transformar-se em instrumento de controlo — uma lição que continua atual.
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