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CASO Nº0619 Confirmado

O "Malleus Maleficarum" (1486) e os íncubos

Poucos livros tiveram consequências tão sombrias como o "Malleus Maleficarum", o "Martelo das Bruxas". Publicado em 1486 ou 1487, na cidade alemã de Espira, foi escrito pelo inquisidor dominicano Heinrich Kramer, também conhecido por Institoris. Durante muito tempo atribuiu-se a coautoria a Jacob Sprenger, mas hoje vários historiadores duvidam da sua participação real.
O livro surgiu pouco depois de o papa Inocêncio VIII publicar, em 1484, a bula "Summis desiderantes affectibus", que apoiava a ação dos inquisidores contra a bruxaria na Alemanha. Kramer aproveitou esse documento, imprimindo-o no início da obra, para lhe dar um ar de aprovação oficial.
Os íncubos ocupam um lugar central. Na primeira parte, o autor discute se é possível que nasçam crianças de demónios íncubos e súcubos, retomando os argumentos de Agostinho e de Tomás de Aquino. Na segunda parte, há um capítulo inteiro sobre a forma como as bruxas se entregariam a estes demónios, descrevendo encontros voluntários como parte do pacto com o Diabo.
A grande mudança está aqui. Para os teólogos anteriores, a mulher visitada por um íncubo podia ser uma vítima. No "Malleus", a relação com o demónio passa a ser vista como sinal de culpa e de feitiçaria. O texto é também profundamente misógino, apresentando as mulheres como mais fracas perante a tentação.
Importa não exagerar o seu peso: o livro foi criticado por alguns teólogos do seu tempo e nunca foi um documento oficial da Igreja. Mas foi reimpresso muitas vezes e circulou amplamente, alimentando a mentalidade que levou aos grandes processos de bruxaria dos séculos XVI e XVII.
Ler hoje o "Malleus" é perturbador. Não por revelar segredos sobrenaturais, mas por mostrar como o medo, a autoridade e a imprensa, então uma invenção recente, se combinaram para transformar lendas noturnas em acusações que custaram a vida a milhares de pessoas.
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