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CASO Nº0618 Confirmado

Tomás de Aquino e a teologia medieval dos demónios noturnos

No século XIII, a Europa vivia um momento de enorme ambição intelectual. As universidades de Paris, Oxford e Bolonha queriam explicar tudo pela razão, incluindo os anjos e os demónios. Foi neste ambiente que São Tomás de Aquino, frade dominicano, escreveu a "Suma Teológica", uma das obras mais estudadas da história da Igreja.
Para Aquino, anjos e demónios são puros espíritos: não têm corpo nem órgãos. Mas podem, segundo ele, assumir corpos aparentes, formados a partir do ar, para se mostrarem aos homens. Daqui surgia uma pergunta delicada: se os demónios não têm corpo verdadeiro, como poderiam gerar filhos, como diziam as histórias de íncubos?
A resposta aparece na primeira parte da "Suma", numa questão dedicada aos corpos assumidos pelos anjos. Aquino admite que, se alguma criança nascesse destas uniões, não seria filha do demónio. O demónio agiria apenas como intermediário: primeiro, sob a forma de súcubo, recolheria a semente de um homem; depois, como íncubo, transferi-la-ia para uma mulher. O pai verdadeiro seria sempre humano.
Esta explicação, que hoje soa estranha, tinha uma lógica própria. Permitia aceitar os relatos tradicionais sem atribuir aos demónios um poder criador que, na teologia cristã, pertence apenas a Deus.
O problema foi o uso que se fez dela. Nos séculos seguintes, a autoridade de Aquino foi invocada por demonólogos e juízes para dar credibilidade à ideia de que estas uniões eram reais e frequentes. Uma discussão teórica tornou-se, nas mãos de outros, uma "prova".
É importante lembrar que Aquino dedicou muito pouco espaço ao tema no conjunto da sua obra. O seu interesse principal era outro: perceber os limites do poder dos demónios e mostrar que estes nunca escapavam à ordem estabelecida por Deus.
Ler a "Suma" hoje é entrar num mundo onde fé e lógica caminhavam juntas. E perceber como uma única resposta, escrita com rigor escolástico, pôde ecoar durante séculos nos tribunais e nos pesadelos da Europa.
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