Início Pesquisa Favoritos Entrar
← Religião e Espiritualidade
CASO Nº0617 Confirmado

O que Santo Agostinho escreveu sobre os íncubos em "A Cidade de Deus"

Santo Agostinho de Hipona, bispo do Norte de África e um dos pensadores mais influentes do cristianismo, não escreveu nenhum tratado sobre demónios noturnos. Mas uma passagem curta da sua obra "A Cidade de Deus", redigida no início do século V, acabou por moldar mil anos de debate.
O contexto é inesperado. No livro XV, capítulo 23, Agostinho comenta um versículo enigmático do Génesis que fala dos "filhos de Deus" que se uniram às "filhas dos homens". A pergunta era: poderiam seres espirituais ter relações com mulheres?
Para responder, Agostinho recorre ao que se dizia no seu tempo. Refere que era voz corrente — e que muitos afirmavam ter experimentado ou ouvido de testemunhas dignas de confiança — que os silvanos e os faunos, a que o povo chamava íncubos, se tinham muitas vezes mostrado atrevidos com mulheres e tinham tido relações com elas. Acrescenta que certos demónios, a que os gauleses chamavam "dusii", faziam o mesmo.
A conclusão é prudente: perante tantos relatos, parecia-lhe atrevido negar tudo. Agostinho não afirma com certeza como isso aconteceria, nem se os espíritos teriam corpos capazes de tal. Quanto ao Génesis, aliás, defende que os "filhos de Deus" seriam descendentes de Set, e não anjos.
Esta cautela perdeu-se com o tempo. Séculos mais tarde, teólogos e inquisidores citavam Agostinho como autoridade para provar que os íncubos existiam, esquecendo as dúvidas que ele próprio deixou em aberto.
A passagem mostra também algo interessante sobre a Antiguidade tardia: as figuras pagãs dos bosques, como os faunos, estavam a ser reinterpretadas como demónios. O íncubo cristão nasceu, em parte, desta transformação dos antigos deuses em inimigos da fé.
Ler Agostinho com atenção ajuda a separar o que ele disse do que depois lhe atribuíram. Não foi o criador do mito, mas deu-lhe um peso que nenhum outro autor antigo conseguiu dar.
Marcar como útil · 0
Guardar
Denunciar

0 respostas

Ainda ninguém respondeu. Sê a primeira pessoa a comentar.

Viveste algo parecido?

Partilha o teu relato. Anónimo se preferires, real sempre.

Enviar relato