Muito antes de Roma ou da Igreja medieval, entre os rios Tigre e Eufrates, já se temiam visitantes da noite. Os antigos mesopotâmicos, que registaram em tábuas de argila tantos rituais contra doenças e demónios, falavam de um grupo de espíritos com um nome parecido: o lilû, masculino, a lilītu, feminina, e a ardat-lilî, uma espécie de versão jovem desta última.
Segundo os estudiosos da Assiriologia, estes seres eram entendidos como espíritos de pessoas que tinham morrido antes de casar ou de ter filhos. Ficariam, por isso, presos a um desejo nunca realizado, e vagueariam à procura dos vivos. A ardat-lilî, por exemplo, era descrita como uma jovem que procurava um marido entre os homens adormecidos.
Um pormenor curioso vem da famosa Lista dos Reis Sumérios. Nesse texto, o pai do lendário rei Gilgameš é identificado como um "lillu", ou seja, um destes espíritos. Os investigadores discutem o sentido exato da expressão, mas a ideia de uma criança gerada por um ser não humano já estava ali, milhares de anos antes da Europa cristã.
Os textos mesopotâmicos também atribuíam a estes demónios certas doenças, sobretudo perturbações nervosas e mentais, e males que afetavam raparigas e mulheres jovens. Contra eles recitavam-se encantamentos e usavam-se amuletos protetores.
Com o passar dos séculos, estas crenças circularam pelo Médio Oriente. A lilītu está na raiz da figura judaica de Lilith, e através dela a tradição chegou à demonologia europeia. O lilû masculino, com a sua ligação ao desejo e à noite, é visto por muitos historiadores como um dos antepassados mais remotos do íncubo medieval.
Convém, contudo, não simplificar demasiado: não existe uma linha direta e contínua entre o lilû e o íncubo. O que há é uma herança de ideias — espíritos noturnos, desejo não satisfeito, uniões proibidas — que várias culturas foram reinterpretando.
Ainda assim, é impressionante perceber que o medo de um visitante que chega enquanto dormimos é quase tão antigo como a própria escrita.
CASO Nº0616
Confirmado
Os espíritos noturnos da Mesopotâmia (lilû) e o nascimento do mito do íncubo
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