Pensas numa pessoa com quem não falas há anos e, minutos depois, o telemóvel toca com uma mensagem dela. Vês a mesma sequência de números repetidamente durante dias. Sonhas com um acontecimento que se passa na manhã seguinte. Coincidência? Ou algo mais?
O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung deu a estes momentos um nome: sincronicidade. Definiu-a como a "coincidência significativa" entre um acontecimento exterior e um estado interior da pessoa, sem qualquer ligação de causa e efeito entre eles. Jung publicou o ensaio sobre o tema em 1952, num livro escrito em conjunto com o físico Wolfgang Pauli, prémio Nobel da Física.
O exemplo mais famoso vem do seu próprio consultório. Uma paciente contava-lhe um sonho em que recebia um escaravelho dourado — e, nesse preciso momento, um besouro bateu contra a janela. Jung abriu-a, apanhou o inseto, parecidíssimo com o do sonho, e entregou-o à paciente. Segundo ele, aquele momento desbloqueou uma terapia que estava parada há muito tempo.
Para muitas correntes espirituais, as sincronicidades são sinais: mensagens do universo, dos guias espirituais ou de entes queridos que já partiram. A popular ideia dos "números repetidos", como 11:11 ou 22:22, nasce desta forma de ver o mundo.
A ciência é mais cautelosa. A psicologia fala de viés de confirmação — lembramo-nos das coincidências que batem certo e esquecemos as milhares que não significam nada — e de apofenia, a tendência humana para ver padrões e significados em acontecimentos aleatórios. A estatística lembra ainda que, com tantos acontecimentos por dia, coincidências espantosas são inevitáveis.
Ainda assim, quem vive uma sincronicidade forte raramente a esquece. E a pergunta que Jung deixou continua em aberto: serão apenas acasos, ou existirá uma ordem escondida que liga a mente ao mundo à nossa volta?
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