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CASO Nº0610 Confirmado

Benzedeiras e rezadeiras: a medicina das rezas que resiste em Portugal

Durante séculos, em muitas aldeias portuguesas, o primeiro recurso perante uma doença não era o médico — era a benzedeira. Mulheres, e por vezes homens, que conheciam rezas passadas de geração em geração e que "benziam" para curar males do corpo e da alma.
As benzeduras tratavam uma lista enorme de problemas: o quebranto e o mau-olhado, o cobrão (uma irritação de pele que hoje associamos à zona), a erisipela, a espinhela caída, o bucho virado, o ar e o susto nas crianças, as dores de dentes e até as maleitas dos animais. Cada mal tinha a sua reza própria e o seu ritual.
Os instrumentos eram simples e cheios de simbolismo: um prato com água e umas gotas de azeite, um raminho de alecrim, oliveira ou arruda, uma faca, uma tesoura, sal, carvões acesos, fios de linha. Muitas benzeduras terminavam com as orações do Pai-Nosso e da Avé-Maria e com a fórmula "em nome de Deus e da Virgem Maria". Era comum repetir o ritual três ou nove vezes, em dias seguidos.
Uma regra atravessa todo o país: a benzedeira não cobra. O dom, dizia-se, é dado por Deus e perde a força se for vendido — aceita-se apenas o que a pessoa quiser deixar. Também se acreditava que as rezas só podiam ser ensinadas em certas datas, como a noite de Natal ou de São João, e a alguém mais novo.
A Igreja olhou sempre para estas práticas com desconfiança, e a medicina moderna fez desaparecer muitas benzedeiras. Mas a tradição não morreu: ainda hoje, em Trás-os-Montes, na Beira, no Alentejo e nas ilhas, há quem procure uma "senhora que benze" para o mau-olhado ou para uma criança que não dorme.
Para os antropólogos, as benzeduras são um património imaterial precioso, que mistura fé cristã, crenças antigas e conhecimento das plantas. Para quem foi benzido, continuam a ser algo mais simples: um gesto de cuidado e de esperança.
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