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CASO Nº0608 Lenda Local

A Procissão das Almas: a Estantiga que percorre as aldeias do Norte

De todas as lendas do Minho e de Trás-os-Montes, poucas causam tanto arrepio como a da Procissão das Almas, também chamada Procissão dos Defuntos ou Estantiga. Do outro lado da fronteira, na Galiza, é conhecida como Santa Compaña.
Conta-se que, em certas noites, uma fila silenciosa de mortos percorre os caminhos das aldeias. Os defuntos seguem em duas filas, descalços, envoltos em mantos ou capotes que lhes cobrem todo o corpo, cada um com uma vela ou um círio aceso na mão. À frente vai um vivo — alguém que não sabe que foi escolhido — a carregar uma cruz e um caldeirinho de água benta.
A procissão tem um significado terrível: anuncia a morte. Diz-se que passa pelas casas onde alguém vai falecer em breve, ou que "vai buscar" a alma de um vizinho. Os mais velhos contam que, antes de a verem, se sente um cheiro a cera derretida, um sopro frio ou o som de passos e de rezas murmuradas.
O vivo que guia a procissão só se livra desse castigo se entregar a cruz a outra pessoa que se cruze com ela — e por isso ninguém a deve aceitar. Quem vê a Estantiga deve fazer o sinal da cruz, agarrar-se a um crucifixo ou, segundo algumas versões, desenhar um círculo no chão e deitar-se dentro dele até a procissão passar, sem nunca olhar para os rostos dos mortos.
As aparições são associadas sobretudo às noites de São João e à passagem de outubro para novembro, altura em que se acredita que o véu entre os vivos e os mortos fica mais fino. Mas há quem jure tê-la visto em noites comuns, em caminhos de serra e junto a igrejas e cemitérios.
Para os estudiosos, a lenda nasce da enorme importância que o culto das almas sempre teve no Norte de Portugal — basta lembrar as alminhas espalhadas pelas estradas. Para quem vive nas aldeias, é um aviso antigo: há noites em que é melhor ficar em casa.
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