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CASO Nº0607 Lenda Local

Lilith: a primeira mulher de Adão e a mãe dos súcubos

Entre todas as figuras sombrias da tradição judaico-cristã, poucas despertam tanto fascínio como Lilith. Para uns é um demónio noturno; para outros, um símbolo de independência feminina. A sua história, porém, é bem mais antiga do que a Bíblia.
A origem remonta à Mesopotâmia, onde os textos falavam de espíritos femininos da noite, as "lilītu", associados ao vento, à tempestade e ao desejo. Na Bíblia hebraica, o nome aparece uma única vez, em Isaías 34:14, numa descrição de lugares desolados onde "ali repousará Lilith". Muitas traduções portuguesas substituem o nome por "fantasma noturno" ou "coruja".
A lenda mais conhecida surge muito mais tarde, no "Alfabeto de Ben Sira", um texto judaico medieval. Segundo ele, Deus criou Lilith do mesmo barro que Adão, e por isso ela recusou submeter-se ao marido. Pronunciou o nome secreto de Deus e fugiu do Paraíso para as margens do Mar Vermelho. Só depois foi criada Eva, a partir da costela de Adão.
Na tradição popular judaica, Lilith passou a ser vista como a rainha dos demónios noturnos: ameaçava recém-nascidos e visitava os homens durante o sono para gerar filhos demoníacos. Daí a sua ligação direta aos súcubos, de quem é considerada a mãe ou a origem. Durante séculos, famílias judaicas usaram amuletos com os nomes de três anjos — Senoy, Sansenoy e Semangelof — para proteger as crianças da sua visita.
Na Cabala e na demonologia medieval, Lilith tornou-se companheira de Samael, o anjo caído. Já no século XX, movimentos feministas recuperaram a sua figura como símbolo de liberdade e recusa da submissão.
Demónio, mito ou símbolo, Lilith continua a ser uma das personagens mais enigmáticas do mundo espiritual — e a sua sombra paira sobre todas as histórias de súcubos que chegaram até aos nossos dias.
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