Poucas criaturas povoam tanto o imaginário rural português como o lobisomem. Ao contrário da versão hollywoodesca do homem-lobo, a tradição portuguesa construiu uma figura própria, profundamente ligada às crenças, ao medo da noite e às histórias contadas à lareira nas aldeias do interior.
Segundo a crença mais difundida, o lobisomem seria o resultado de uma maldição que recaía sobre o sétimo filho varão de uma família, quando todos os anteriores eram também rapazes. Esse sétimo filho estaria condenado a transformar-se em certas noites, geralmente à sexta-feira ou em noites de lua cheia, correndo os campos e as encruzilhadas numa espécie de fúria involuntária. Para quebrar o fado, dizia a tradição, era costume que o primeiro filho fosse padrinho de batismo do sétimo.
A transformação, nas versões portuguesas, nem sempre é a de um lobo. Em muitas histórias, o lobisomem corre à noite transformado num animal disforme ou revolve-se em determinados locais, como currais ou lameiros, ganhando pelo e perdendo a razão. Ao amanhecer, regressaria à forma humana, exausto e sem memória clara do que fizera, muitas vezes ignorando a própria condição.
Estas lendas cumpriam funções sociais bem concretas. Serviam para explicar comportamentos estranhos, doenças, crises nervosas ou simplesmente para manter as crianças longe dos caminhos escuros à noite. O medo do lobisomem era também o medo do desconhecido que rodeava as aldeias isoladas, onde a floresta e a escuridão escondiam perigos reais.
Hoje, os investigadores do folclore veem no lobisomem uma janela para as mentalidades do mundo rural português: um cruzamento de superstição, religião popular e necessidade de dar forma ao inexplicável. A criatura continua viva em contos, romarias e na memória de muitas famílias.
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